Autoria: Claudia Lage e João Ximenes Braga
Supervisão de texto: Gilberto Braga
Direção: Cristiano Marques, André Câmara
Direção-geral: Dennis Carvalho e Vinícius Coimbra
Direção de núcleo: Dennis Carvalho
Período de exibição:10/09/2012 – 08/03/2013
Horário: 18h
N° de capítulos: 154 capítulos
PERSONAGENS NO CAPÍTULO
Isabel
Zé Maria
Laura
Edgar (citado nesse capítulo)
Caniço
Tia Jurema
Constança
Celinha
Albertinho
Fernando
Umberto
Teodoro
Berenice
Afonso
Carlota (citada no capitulo)
Costureira
CENA 1/ FUNDO NEGRO
Um letreiro grande em fundo preto: RIO DE JANEIRO seguido de 1903.
Planos gerais recortes em fotos da cidade do Rio de Janeiro desse
período. Recortes dos mais importantes lugares, e dos mais humildes da
época.
É carnaval, um bloco brinca carnaval na Gamboa, as
pessoas brincam pulam e batem tambor. É a efervescência do samba que começa a
surgir com força.
CENA 1/ CARNAVAL DE RUA/GAMBOA/ CÉU ABERTO/ EXTERIOR /NOITE.
Um homem fantasiado de “diabo” caminha em meio à
multidão.
Caniço – Bum!
Zé Maria ( tira a mascara) - Quê isso criatura quer me matar de susto?
Caniço – Mas que diabo é esse que tem medo de
assombração?
Zé Maria – É que com esse teu bafo de enxofre eu
pensei que fosse coisa ruim encar... –
boquiaberto corta o que estava falando ao ver Isabel dançar – Heei é hoje que o
anjo caído faz as pazes com Deus e volta pro céu.
Zé Maria fica absorto com a beleza da dança de
Isabel.
Caniço( jocoso) – Aquela maravilha ali?... Mulher de
mais pra você.
Zé Maria (recolocando a mascara) – Carnaval Caniço,
tudo é possível...
Zé Maria corre para dançar em volta de Isabel.
Isabel (enraivecida empurra Zé Maria) – Diabo!
Vai pro inferno! Aproveita que o buraco de onde você saiu ainda deve tá aberto!
Isabel sai. Caniço se aproxima.
Caniço – Her he, he, que rasteira hein...
Zé Maria – Brincadeira... Ninguém avisou a essa moça
que carnaval é pra brincar não?
Caniço (brincalhão) – Moça séria Zé, vai dá trela
pro pobre diabo, rapaz.
Zé Maria (convicto) – Pois até o fim da quaresma ela vai ser
minha.
Caniço (divertido) – Há! Há!
Corta para
CENA 2 / GAMBOA / CÉU ABERTO /EXTERIOR/ NOITE.
Isabel se achega a tia que está com um tabuleiro de
acarajé por perto.
Isabel – Tem graça tia? Eu me divertindo no cordão
vem um sujo me atrapalhar... Essa história que tão dizendo por ai que vão
proibir o uso de mascaras no carnaval, bem sou a favor!
Tia Jurema (enquanto mexe a massa do acarajé ) – Não
diga isso Isabel, você não sabe o que tinha por trás da mascara podia ser coisa
boa.
Isabel – Eu gosto de tudo às claras tia.
Tia Jurema – Presa na casa da madame é que você
nunca vai conhecer nenhum rapaz.
Isabel – Hum e eu vou querer marido pra quê?
Corta para
CENA 3 / MANSÃO ASSUNÇÃO/ QUARTO DE LAURA / INTERIOR/ NOITE.
Laura está com o vestido de noiva. Rita a costureira
faz ajustes no vestido. Constância e Celinha observam tudo.
Laura – Tá ótimo dona Rita. Qualquer detalhe
acertamos depois.
Constância – Não, acertamos tudo agora. Se formos
deixando tudo pra depois, daqui a pouco a costureira vai ter que subir com a
noiva no altar.
Laura – Temos muito tempo mãe.
Constância – Em se tratando de casamento... um ano
não é nada, um ano é ontem.
Celinha – Até que sua mãe tem razão Laura.
Constância ( para Laura) – Como é que você sabe hein
Celinha? Ou vai a igreja pra rezar ou pra se confessar, pra casar nunca foi...
Aperta aqui dona Rita na cintura ô... mais!
Laura (incomodada) – Mãe... O vestido está ótimo.
Constância – Edgar vai ter um susto quando vir você
magricela assim... Quando ele foi pra Portugal você tinha mais recheio.
D. Rita – Ponto!
Celinha – Tá lindíssima!
Constância – Como toda noiva deve ser... Agora só
falta um sorriso Laura. Uma noiva deve está sempre linda, e sorridente
filha!
Laura ( de frente para o espelho) – Deve?... que eu
saiba beleza e sorriso nunca foram obrigação. Mãe a senhora não quer ver logo
seu vestido lá no seu quarto? Eu e dona Rita já terminamos aqui.
Constância – Que
tom é esse mocinha?!
Celinha – É nervosismo por causa do casamento, não
lembra como você ficava Constância? Não tinha quem não chegasse perto que não
levasse uma ferroada.
Constância – Está bem eu vou relevar e indelicadeza
de uma filha. Em nome do nervosismo das noivas, hum.
Constância e Celinha saem, Laura e D. Rita a
costureira ficam sós.
Laura (aflita, a costureira) – A senhora sabe que
horas são?
D. Rita – Deve ser umas seis horas. Olha que
compromisso sério de moça é casamento. Ih esse é só daqui um ano.
Laura – Compromisso de hoje não é casamento mas é
muito importante.
Corta para
CENA 4 / MANSÃO ASSUNÇÃO/ SALA/ INTERIOR /NOITE.
Constância e Celinha sentadas bebericam chá.
Empregada – Mais alguma coisa dona Constância?
Constância – Não obrigada pode se retirar.
Celinha – Eu acho muito bonito, muito romântico, mas
não sei como Laurinha vai conseguir
noivar por correspondência por tanto tempo.
Constância – É melhor assim que não enjoa.
Celinha – Ah eu não ia aguentar! Noivar por carta?
Por foto?... Noivado bom é de carne, osso... Ai de
longe não tem graça.
Constância – Componha-se Celinha, Laura e Edgar terão tempo de sobra para
ficarem juntos depois de casados.
(Entra
Albertinho na sala vestido para o
carnaval)
Albertinho (animado) – Ô ABRE ALAS QUE... O REI
DO CARNAVAL QUER PASSAR.
Celinha – Ai que susto Albertinho!
Constância (entre risos) – Celinha sempre teve medo
de blocos, filho... desde menina que ela se escondia debaixo da cama quando
ouvia a arruaça na rua.
Albertinho – É Celinha?
Celinha (assentindo) – Huhum.
Constância – Não está cedo para ir ao baile?
Pilhéria de respeito só na rua do ouvidor. Você sabe ou numa das sociedades
carnavalescas.
Albertinho – Sim, sei, nos lugares mais civilizados
como a senhora costuma dizer, pra não ter perigo de maus diabos que se vestem
de anjos. (beija Constância ) Eu vou indo. Ô ABRE ALAS QUE EU QUERO PASSAR! Ô
ABRE ALAS QUE EU QUERO PASSAR!
(Sai Albertinho, voltando a ficar Constância e
Celinha a sós)
Constância – É cada má companhia, são esses
amigos boêmios que ele arranjou, gostam de musica de NEGROS, hum o tal
do samba, imagine Celinha? Se essa batucada de africanos de macumbeiros
algum dia vai ter qualquer
importância para o Brasil.
Corta para
CENA 5/ CARNAVAL DE RUA/GAMBOA/ CÉU ABERTO/ EXTERIOR/ NOITE.
(Sem mascara Zé Maria alerta Caniço que faz pouco caso)
Zé Maria – Caniço! Estrela esta noite tá vindo nessa
direção vai cruzar com rosa branca.
Caniço – E eu com isso Zé Navalha?!
Zé Maria – É que aqui é área do rosa branca... Estrela
só de provocação.
Caniço – E eu vou ficar me metendo em briguinha de
carnaval Zé?
Zé Maria – É melhor a gente tentar controlar por que
se der confusão e a policia aparece, vai ficar ruim pra todo mundo.
Corta para
CENA 6/ MANSÃO ASSUNÇÃO/ ANTE SALA / TERREO/
NOITE.
(Laura apressada desce o lance de escadas. Constância
a intercepta antes de sair)
Constância – Laura! Meu vestido vai ficar deslumbrante!
Eu... Você vai sair?
Laura – É tenho um compromisso.
Constância – No carnaval?... Não acho de bom
tom uma moça sair desacompanhada. Ainda mais em dia de festa pagã .
Laura (organizando a bolsa) – Não vou atrás de movimento mãe, combinei de
encontrar Alice, só isso.
Constância – Se vai encontrar sua prima está bem...
Mas espere eu vou com você, eu aproveito pra prosear com Carlota.
Laura – Não vou a casa dela, combinamos de nos
encontrar na confeitaria. Até logo!
Corta para
CENA 7/ CARNAVAL DE RUA/GAMBOA/ CÉU ABERTO/ EXT/NOITE.
(Os janotas
Albertinho, Umberto, Fernando e Teodoro surgem vestidos a caráter da
patuscada)
Albertinho – Ah o carnaval! Festa da carne,
tudo é possível senhores! Então divirtam-se!
Fernando - Tudo
é possível mesmo, um assalto, uma
briga, um ataque de um grande capoeira
.. Sei lá.
Umberto – É só resistir a tentação de agarrar uma
mulata acompanhada e você vai sair vivo da Gamboa Fernando! (entre
risos)
Albertinho – Ai ô...
Teodoro (debochado) – O Fernando com uma mulata?
Esse risco ele não corre ele nem sabe como fazer...
Fernando – Você também não...
Albertinho – Último dia de diversão meus caros, não
desperdicem a chance. (Dispersam-se,
Albertinho nota Isabel dançando e a cobiça) Eu vou aproveitar bem a minha.
Corta para
CENA 8/ RUA BIBLIOTECA MUNICIPAL/ EXT/ INT/
NOITE.
Laura chegando, e entrando na biblioteca Municipal.
Constância e Celinha a observam do
cabriolé em frente a biblioteca.
Constância - É um namoradinho eu tenho certeza! Ah Isso explica tanta coisa! O desanimo
com Edgar, com o casamento...
Celinha - Namoro não combina com biblioteca Constância!
Ela veio pegar um livro.
Constância - No carnaval? Sua tonta! Não tem
expediente hoje.
Celinha - Como ela entrou então?
Constância - Mas é o que estou dizendo, eu tenho
certeza! Ela combinou tudo com o namoradinho.
Celinha – É só tem um motivo para ela não querer
casar com um moço tão bonito quanto Edgar. Outro moço tão boni...
Constância (corta) – Ah mais quanta tolice! Quem
disse que minha filha não quer se casar?... Abre! Sai, sai! Vai... vai.
Corta para
CENA 9/ BIBLIOTECA MUNICIPAL/ SALÃO/ INT/
NOITE.
Constância e Celinha entram, procurando Laura. O salão está vazinho as duas segue para as escadarias. Constância sempre a frente.
CENA
10/ BIBLIOTECA MUNICIPAL/ ESCADARIAS/ INT/ NOITE.
Celinha acompanha Constância, seguindo atrás da
irmã.
Celinha (aos sussurros) – Mas não tem ninguém
aqui...
Constancia – Que moda é essa? Só se fala
baixo na biblioteca no salão onde as pessoas estão LENDO!
Laura – (off) O coração me impele e fala minha
razão... Mas a razão sucumbe... Vence o
coração.
Constância entra na sala de recitais de onde
vem a voz de Laura. Celinha logo atrás.
Corta para
CENA
11/ BIBLIOTECA MUNICIPAL/ SALA RECITAL/ INT/ NOITE.
Rapaz (recitando para Laura) – Eu quero um beijo, um
beijo só. O meu desejo meu bem, tem dó.
Laura – Queres um beijo? Pois toma-o lá!
Celinha – Oh! (e desmaia)
Celinha solta um grito de afobação e cai, num
desmaio. Constância permanece firme, não parece abalada. Os outros rapazes veem
ao socorro de Celinha que fica caída no chão ao lado da irmã. Constância encara
a filha em desafio, Laura mantém seu olhar convicta!
Corta para.
CENA
12/ CARNAVAL DE RUA / GAMBOA/ CÉU ABERTO/ EXT/ NOITE.
As pessoas dançam ao ritmo do samba. Zé Maria, está
sério sem a mascara parece tenso com a chegada do grupo rival. Caniço se
aproxima.
Caniço – Oh fica tranquilo Zé Navalha, não vai ter
confusão nenhuma não homem.
Zé Maria – Tomara que você tenha razão...
O tambor do grupo estrela branca se anuncia, Zé é o
primeiro a notar, avisa.
Zé Maria – Olha lá!
O grupo vai se aproximando, Zé Maria e Caniço são os
que estão mais próximos do grupo. O líder do outro grupo está mascarado, ele
quem bate o tambor mais forte, esse mesmo dá sinal para a banda parar quando fica frente ao grupo rosa branca. Zé veste a mascara.
Zé Maria – Bora lá...?
Caniço (com medo) – Ih eu vou me envolver na briga
dos outros Zé? Pelo menos essa sua fantasia ridícula vai servir mais tarde para
você fugir da policia.
Zé Navalha se aproxima do líder do estrela.
Zé Navalha – Fala mestre... O senhor que é o chefe
da pancadaria?
Líder do Estrela (vos trovejante ) - Eu mesmo.
Interessado?
Zé Navalha – Tô falando da bateria mestre...
Líder do Estrela – Mas se quiser pancadaria da
grossa também tem.
Zé Navalha – Não, não senhor, eu quero é paz. Essa
área aqui é do rosa branca.
Líder do Estrela – Ano passado teve gente de vocês,
entrando na nossa área.
Zé Navalha – Tem mulher e criança aqui, vamo evitar
confusão.
Líder do Estrela -
Ih eu vou te obedecer porque, Diabo?
Zé Navalha – Faço um trato...
Líder do Estrela (jocoso) – Quer comprar minha alma?
Zé Maria – Homem a homem, quem vencer vai tocar seu
tambor pra longe daqui...
Líder do Estrela – Tá feito!
Os dois começam a dançar capoeira, todos os outros
abrem mais espaço.
Corta para
CENA
13 / GAMBOA/ CÉU ABERTO /EXT/NOITE.
Isabel vê de perto a briga dos capoeiras, volta para
ajudar a tia Jurema a arrumar seus
tabuleiros de acarajé para irem embora.
Isabel – Tia vamos embora daqui rápido! (movimento)
Tia Jurema – Bem fez você em não dá trela pro diabo,
ainda por cima é capoeira. (movimento)
Isabel – Capoeira é tudo bandido. Vamo... ( em
movimento)
Tia Jurema – Vem... ( movimento)
Corta para
CENA
14/ CARNAVAL DE RUA/GAMBOA/ CÉU ABERTO/ EXT/ NOITE.
Zé vitorioso comemora com Caniço.
Caniço – Mandou bem Zé!
Zé Maria – Agora eu quero vê aquela mulata me negar
uma dança.
Caniço – A lindona?
Zé Maria (procurando Isabel) – É...
Caniço – Escafedeu-se.
Zé Maria – Só me resta a orgia...!
Corta para
CENA
15/ CARNAVAL DE RUA/GAMBOA/ CÉU ABERTO/
EXT/ NOITE.
Fernando – Vamos embora desse inferno.
Albertinho – Que isso Fernando? Nunca me diverti
tanto.
Teodoro – Vamos para a rua do Ouvidor! Chega dessa
gentinha.
Teodoro e Fernando vestem as mascaras, e saem.
Albertinho e Umberto mais atrás também vestem as mascaras seguindo os dois
primeiros.
Corta para
CENA
16/ RUA DESERTA/ CÉU ABERTO/EXT/NOITE.
Isabel e Tia Jurema seguem para a casa de Comadre
Bastiana.
Tia Jurema – Eu vou ficar aqui mesmo com comadre
Bastiana. (em movimento com o tabuleiro na mão)
Isabel (ajudando a carregar outra parte do
tabuleiro) – Vamo pra casa tia...
Tia Jurema - Que nada é carnaval, daqui a pouco esse
clima ruim passa a festa volta e eu ainda tenho muita massa de acarajé.
Isabel – Ai pra mim
já perdeu a graça eu vou pra casa que amanhã eu acordo cedo. (entrega o
tabuleiro a tia) Tá aqui...
Tia Jurema (já na porta de Bastiana) – Vá sim minha
filha vá sim...
Isabel – Benção tia...
Tia Jurema – Oxalá te abençoe.
Isabel desce a rua tranquilamente, quando cruza com
o grupo de janotas mascarados liderados por Fernando que a vendo indefesa se
aproxima rudemente, os quatro cercam-na.
Fernando (mascarado) – Ohhh... (impede a passagem de
Isabel)
Umberto (tira a mascara) – Deixa eu mexer esse café
com leite...
Isabel – Quer saber onde eu vou mandar você meter
essa colher?
Teodoro – Uhh é tinhosa!
Isabel – Você não sabe o quanto.
Umberto – Boa
assim...
Fernando – Você deveria saber onde é o seu lugar.
Albertinho é o único que ainda está com a mascara
rondando os outros, deixando os amigos fazerem o que quiserem, sem interferir
mas também se ajudar.
Isabel – Sei sim LONGE DE VOCÊS!
Fernando, Teodoro e Umberto impedem a passagem de
Isabel segurando-a.
Fernando – Ei, ei, ei...
Teodoro – Ei, ei, ei...
Umberto – Você é muito bonita moça...
Teodoro – Não tem para onde correr...
Albertinho observa sem se mexer, mantendo uma
distancia.
Zé Navalha (mascarado) – NEM VOCÊS!
Umberto (veste a mascara) – Mais que diabos é
isso?
Os outros dois (Fernando/ Teodoro) também se
mascaram, e vão a luta com Zé Navalha que já em posição de capoeira, jonga para
cima dos três só Albertinho se mantém distante. Mas intervém quando percebe se tratar de um capoeira, e vê seus
amigos apanhando feio.
Albertinho – Ehhei vocês vão brigar com capoeira?!
Ainda mais se a mulher é dele...
Isabel – Eu não sou nada dele não!
Zé Maria – É! O garoto tem juízo...
Albertinho – Não quero problema com você.
Zé Navalha – Sai!
Albertinho – Vamos, vamos... (ajuda Umberto a erguer
Teodoro que está caído)
Os mauricinhos saem, Zé Maria preocupado se aproxima
de Isabel.
Zé Maria – Tá tudo bem com você?
Isabel – Esquece!
Zé – Espera ai, mas eu não fiz nada...
Isabel – Eu tenho pavor de quem sujo no carnaval
tenho pavor de capoeira corja de bandido sem vergonha.
Zé Maria – Se não fosse por minha causa...
Isabel (cortante) – Eu sei cuidar de mim!
Zé Maria – Mas o que é que eu t fazendo...
Isabel – Cala a boca! Você já falou demais por
hoje...
Isabel sai correndo, deixando Zé Navalha sozinho sem
entender nada.
Zé Maria (retira a mascara) – Mulherzinha metida!
Corta para
CENA
17/ MANSÃO ASSUNÇÃO/ CÉU ABERTO/ FACHADA/ EXT/NOITE.
Plano geral da mansão fachada, com o cabriolé de
Constância chegando.
CORTA
CENA
18/ MANSÃO ASSUNÇÃO/ SALA/ INT/ NOITE.
Laura está em pé, tirando as luvas. A mãe está a sua
frente furiosa.
Laura – Eu não fiz nada de mais...
Constância – Mentiu pra sua mãe... Nada
justifica Laura, a minha filha em cima de um caixote ordinário!
Laura – Em
cima do palco, era um sarral...
Constância (corta a fala de Laura) – Insinuando-se a outro homem...
Laura – Eu não me insinuei a ninguém.
Constância (dramática) – Mas graças a Deus a sua tia
caiu dura naquele chão, se não você não
só se insinuava como beijava!
Laura (sorrindo) – Não era eu, era aquela personagem da peça do
Artur de Azevedo que eu falei pra você...
Constância(cortando fala de Laura) – Não me interessa! Você guarde essas
sem-vergonhices para as atrizes que já são umas desclassificadas.
Laura (cansada da conversa) – Só estávamos lendo a peça que eu estava
dando na minha aula de literatura... O Artur era meu aluno, já faz um tempo eu
dou aula na biblioteca, é um trabalho voluntário por enquanto...
Constância (com repulsa) – É um trabalho?! Você está noiva.
Laura – Eu estudei, não fiz o curso normal atoa...
Constância – Mas era um passatempo enquanto seu
noivo estava em Portugal. Har, mas desde menina que você tem essa mania de
largar as bonecas, as mais lindas. Pra se apegar aos livros... Ham, e agora
essa?! Onde estamos meu Deus? Onde é que nos vamos parar?
Laura – Não sei onde vamos parar... Mas que seja bem
longe, estamos em 1903! O século dezenove acabou, a monarquia se foi!
Constância – O mundo continua o mesmo, com as mesmas
regras e os mesmo valores. Se engana
quem pensa que pode ser diferente.
Laura (enfática) – Se engana quem pensa que pode
ser igual. Ou a senhora acredita mesmo que o tempo passa e as pessoas não
mudam?
Constância (debochada) – Você acha mesmo que o seu marido vai
permitir uma insanidade dessas? Ensaios, teatros, beijos? Eu sou sua mãe
e posso perdoar, mas o seu marido...
Laura se senta, fatigada. Constância se aproxima,
sentando próxima a filha.
Constância (continua/ paciente) - No dia do seu
casamento quando você entrar naquela
igreja, eu estarei acompanhando cada passo seu até o altar, um por um. Até o
seu pai entregar você ao Edgar, e essa
conversa vai ficar esquecida no tempo filha... Como um, um devaneio e, você mesma
vai se esquecer dessa moça tão cheia de fantasias.
Laura (enraivecida) – Não são FANTASIAS!
Constância (reticente) – São maluquices. Que
em breve, diante do padre com a benção de Deus estarão mortas enterradas
para SEMPE.
Constância sai firme.
Corta para
CENA
18/ CARNAVAL DE RUA/ GAMBOA / CÉU ABERTO/EXT/ NOITE.
Os mauricinhos estão saindo da Gaamboa, todos com
hematomas da surra que levaram do capoeira. Em movimento eles atravessam uma
rua quase sem ninguém.
Fernando – Disse... Sabia que isso ia acontecer.
Umberto – Você está reclamando do quê? Eu é que
levei a pior...
Teodoro – É levei a pior, levei a pior. Você é brancoro
demais para bancar o conquistador na Gamboa, Umberto.
Fernando – Olha esse lugar... Infecto. Olha que gentinha?!
Albertinho (sorrindo) – Oh Fernando...
Fernando – O quê que é? Você tá rindo do quê? Você é
um covarde!
Albertinho – VOCÊS É QUE SÃO UNS GROSSOS, NA GAMBOA
OU NA RUA DO OUVIDOR. Não conseguem perceber a elegância daquela morena, a
beleza, a graça!
Fernando (escarnio) – Ah! Uma escurinha!
Albertinho – Você não sabe como tratar uma mulher...
Vocês não entendem... Mas eu ô, gostei daqui.
Fernando (de bom humor) – Tá bom. Apresenta ela pra
tua mãe...
Albertinho – Ai não é pra tanto Fernando!
Os quatro saem aos risos, e palavras audíveis, mas
de difíceis interpretações pilhérias.
Corta para
CENA
19/ MANSÃO ASSUNÇÃO/ SALA DE JANTAR/ INT/NOITE.
Constância e Alberto jantando, ele na cadeira da
cabeceira da mesa ela ao seu lado direito. Constância está preocupada.
Constância – Ahhh estou sem apetite Alberto. Esta
dor de cabeça está me matando.
Alberto – Ah não se exaspere tanto querida, isso
passa logo.
Constância – Essa dor de cabeça tem nome e tem
sobrenome, não passa assim.
Alberto – Passa, quando Laura casar.
Constância – Não entendo essa sua calma. Você
tem ideia da importância desse casamento pra nossa família?
Alberto – Tenho. Eu tenho, eu só não preciso perder
o apetite pra demonstrar isso, preciso?... Oh meu bem, logo você vai melhorar
viu...
Corta para
CENA
20/ MANSÃO ASSUNÇÃO/ QUARTO DE CELINHA/ INT/
NOITE.
Celinha está sentada na cama, enquanto Laura lhe oferece
agua.
Laura – Tá melhor tia?
Celinha (bebendo agua) – Tô, tô, mas meu olho tá
pesado quer fechar de todo jeito.
Laura – Ohhh tia deixa fechar, oras descansa um
pouco...
Celinha – Que descanso o quê?... Fecho os olhos e só
vejo você e aquele moço no palco, não consigo ver outra coisa... O beijo? Foi
bonito?
Laura (entre risos) – Oh tia! Não teve beijo, a
senhora desmaiou... (mais risadas de Laura)
Celinha – Ai que azar... (Celinha prende as mãos de
Laura entre as suas) Que minha irmã não me ouça, mas que coragem minha
sobrinha, as aulas a peça, você fez tudo aquilo escondido dela...
As duas sorriem cumplices.
Laura – A um dia quem sabe minha mãe vai entender...
Solteira ou casada eu quero estudar, trabalhar, não tem nada demais... Muitas
mulheres já fazem isso.
Celinha – Muitas não, poucas, pouquíssimas. Se
contar nos dedos não enche uma mão.
Laura – É, mas... De pouquinho em pouquinho.
Corta para
CENA 21/ RUAS DO RJ/ EXT/ INT/ NOITE.
Planos gerais da noite na cidade maravilhosa, homens
engravatados em bares noturnos, mulatos e mulatas passeando pelas ruelas. Plano
geral do cortiço.
CORTA
CENA 22/ CORTIÇO/ CASA DE ISABEL/ EXT/ INT/NOITE
Afonso toca seu violão enquanto Isabel engoda uma
roupa.
Afonso – Você chegou com uma cara tão preocupada
minha filha.
Isabel – Nada não pai...
Afonso – Não vai me dizer que algum engraçadinho...
Isabel – Eu sei me cuidar, mas o Rio tá ficando
perigoso mesmo. É gente em tudo que é ponto vindo pra cá, a cidade tá fervendo.
Afonso – Já foi o tempo que a gente podia brincar o
carnaval lá na Gamboa em paz, agora não é um atazanando o outro... Eu devia ter
isso com você lá minha filha. Mas eu já fico tanto tempo em pé naquela
barbearia que...
Isabel – Ô amanhã quando madame Bezonson tirar a
cesta, eu vou levar um almocinho pro senhor.
Isabel beija o rosto do pai, carinhosamente.
Afonso – Huhum... que bom minha filha, que bom.
Corta para
Cortes de planos gerais de construções daquele
período no centro do Rio de Janeiro. Imagens das mais diversas, todas urbanas.
CENA 23/ EXT/ INT/ RUA DO OUVIDOR/ BARBEARIA/ DIA.
Pessoas andam por todos os lados da rua. Isabel vai
levando a marmita ao pai no local de trabalho dele. Isabel entra na barbearia,
Zé Maria está atendendo um cliente, não a vê entrar até que reconhece a voz e
se vira.
Isabel – Boa tarde, seu Afonso, ele está?
CENA 23/ EXT/ INT/ RUA DO OUVIDOR/ BARBEARIA/ DIA/
Corta para
CENA 23/ EXT/ INT/ RUA DO OUVIDOR/ BARBEARIA/ DIA/
CONTINUAÇÃO EXATA DE CENA ANTERIOR
Zé fica paralisado sem conseguir responder de
imediato.
Isabel – Vim trazer o almoço pra ele, ele está?
Zé Maria (boquiaberto/ encantado) – Ele saiu mas você pode deixar ai que eu entrego
pra ele.
Isabel – Não, eu acho que prefiro esperar.
Zé Maria – Ehhhei mas é metida mesmo hein!
Isabel – Metida eu?!
Zé Maria – É cê tá insinuando que eu vou roubar o
almoço dos outros é?
Isabel – Ce me conhece pra falar comigo desse jeito?
Zé Maria – É conhecer eu não conheço.
Isabel – Então você é grosseirão com qualquer mulher
que apareça na sua frente?
Zé Maria – Não qualquer um não...
Isabel – E porque logo comigo?
Zé Maria (dissimula) – Me desculpa! Vamo começar de
novo? Você cozinha bem? Porque de repente eu passo a encomendar meu almoço com
você também.
Isabel (desdenhosa) – Vai sonhando... Cê quer dizer
onde meu pai tá antes que esse embrulho vá voar na sua cara!
Zé Maria – Me desculpa eu não sabia...
Isabel – Que o que? Eu era filha dele, se soubesse
tinha me tratado bem desde o inicio.
Zé Maria – Não é isso...
Isabel (corta a fala dele) – Como achava que eu era
cozinheira de pensão, veio todo atrevido eu conheço bem seu tipinho.
Os dois permanecem calado por alguns segundos,
Afonso chega. Isabel está com rosto desafiador, Zé apaixonado.
Afonso – Algum problema filha?
Isabel – Eu vim trazer o seu almoço.
Afonso – Eu acho que vi você discutindo com ele. (
aponta Zé) Ele te desrespeitou foi isso?
Isabel – Não, de jeito nenhum.
Zé Maria – Seu Afonso, eu não tratei a sua filha com
a atenção que devia. Mas é que tava atarefado aqui com o redemoinho da nuca do doutor Nicolau, e
eu fiquei atarefado!
Afonso – Chi, chi, vai atender o cliente, vai...
Zé Maria (encabulado) – Tá certo...eu...
Isabel (direto a Afonso) – Foi só um mal entendido
pai.
Afonso – Apesar de ele tá pouco tempo aqui ele é bom
rapaz... Inclusive eu arrumei um quartinho lá perto da gente. Ele tá procurando
lugar pra morar.
Isabel – Eu vou voltar pro trabalho, logo madame
acorda. Seu almoço. Tchau...
Isabel sai, e o cliente logo em seguida. Afonso e Zé
ficam a sós, Afonso abrindo o almoço.
Zé Maria – Seu Afonso...
Afonso – Hum?
Zé Maria – Pode almoçar tranquilo ai que eu pego o
próximo cliente viu,
Afonso (entretido com a comido ) – Humhum...
Zé Maria – Oh... ô seu Afonso?
Afonso – Hum?
Zé Maria – Se não for ofensa, será que eu podia
pedir a senhorita sua filha em namoro?
Isabel entra e pergunta pelo pai, Zé Maria que
trabalha no local vira-se e encara Isabel que não o reconhece, ele bestifica
vidrado na moça.
Corta para
CENA
24/ MANSÃO ASSUNÇÃO/ QUARTO LAURA / INT/
DIA.
Laura entra no quarto animada com a prima Alice, e
flagra a mãe lendo seu diário pessoal, as duas agora discutem seriamente.
Alice (aos risos) – A prima eu não concordo, meu
sonho é diferente.
Laura percebe a mãe sentada em sua escrivaninha, vai
até ela.
Laura (fecha a porta) – Mãe... Que quê isso?
Constância (dissimulada/ de costas a filha) – Estou lendo... Não é o seu passa tempo
favorito? Porque eu não posso?
Laura (indignada) – Isso é meu diário! Isso é uma
falta de respeito, eu tenho direito a minha privacidade.
Constância – Não, esse aqui não pode ser o seu
diário. Esses rabiscos são um folhetim
muito tolo sobre uma moça que não sabe o que quer da vida... Imagina gosta de
escrever, quer ser professora.
Laura (tenta arrancar o diário das mãos da mãe) – Me
dá isso aqui! Você não tem esse direito!
Constância (lê alguns trechos do diário em suas
mãos) – “Eu não entendo porque o casamento deva ser o destino natural da
mulher. Nos somos capazes de muito mais”.
Mais o que? Sem-vergonhices?
Laura – Tá me ofendendo!
Constância começa a rasgar as paginas do diário de
Laura.
Constância – Você
tem obrigações com nossa família com a nossa linhagem!
Laura avança no intuito de salvar o que restou do
diário, e consegue toma-lo da mãe.
Constância (continua) – Eu sou a Baronesa de Boa
vista! E você pare de alimentar fantasias.
Depois da apoquentação protagonizada por Constância,
essa sai do quarto de Laura batendo a porta. Laura e Alice ficam a sós, Laura
se senta na sua mezinha indignada.
Laura – Viu Alice? Ela acha que eu não existo que
sou uma Marionete!
Alice – Ela quer o seu bem...
Sentada diante do restante do diário Laura, está
nervosa.
Laura – “Obrigações com nossa família” “Nossa linhagem” Ela quer é o bem dela...
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CENA
25/ CORTIÇO/ A CÉU ABERTO/ EXT/DIA.
O cortiço, muito movimentado. Gente indo e vindo,
crianças correndo para todo lado, Zé Maria chega com Afonso, esse a frente. Zé
traz consigo pouca coisa.
Afonso – Ahh boa tarde sinhá como é que tá? Quer
dizer que depois você vai voltar para pegar o resto das suas coisas?
Zé Maria – Eu não tenho mais nada não sr. Afonso ,
isso aqui é tudo o que eu tenho nessa vida... Agora força pra trabalhar e
alegria, é tudo o que eu carrego comigo.
Afonso – Mas é bom ter pouca coisa, porque eu avisei
que o quarto é pequenininho.
Zê Maria – Mas é barato, eu não sou de luxo não.
Tia Jurema – Oi Sr Afonso. As toalhas da barbearia
lavadinhas...
Afonso – Obrigado, obrigado Jurema.
Tia Jurema – Com esse sol secou rápido. Esse moço
que vai ficar no quarto que era do Orlando?
Afonso – Ele é o Zê Maria que trabalha com a gente
lá na barbearia.
D. Ernestina – Não fica nesse quarto não moço...
Zé Maria – Porque?
D. Ernestina – Por que um tisico morreu naquela
cama.
Tia Jurema – Ih dona Ernestina já defumei tudo lá,
tudo o que era do Orlando já foi pro fogo. Um homenzarrão desses com medo de
fantasma, ou tem?
Zé Maria – Nem de alma, nem de doença de peito!
Tia Jurema – Há! Muito bem,
S. Isidoro – Zé Maria!
Zé Maria – Oh Isidoro!
S. Isidoro – Seja bem vindo! O Afonso já lhe
explicou tudo? Banheiro só tem um, e para encher a vasilha na bica d´agua
também tem que fazer fila viu
Zê Maria – Êh! Primeiro eu preciso achar a vasilha
né... Depois eu entro na fila...
Tia Jurema – A gente com licença que eu vou ali, com
licença...
S. Isidoro – Eu também vou... Dá licença...
Afonso – O seu quarto é o último do corredor, viu...
Zé Maria – Obrigado por tudo Sr. Afonso.
Berenice que está perto observa a chegada de ZÉ.
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CENA
26/ CORTIÇO/ INT/DIA.
Zé Maria a procura seu quarto. Berenice o intercepta para
entregar um balde de cortesia.
Berenice – Tome, use a minha.
Zé Maria – Ê, já vi que segredo por aqui não se
cria.
Berenice – Tá com vergonha de pobre? Aqui no cortiço
todo mundo se ajuda.
Zé Maria – E nem precisa pedir.
Berenice – Meu nome é Berenice.
Zé Maria – O meu aposto que você já sabe.
Berenice – Pega, tá limpa. Depois eu venho aqui no
teu quarto buscar.
Zé Maria – Brigado, mas eu prefiro comprar uma nova
num armarinho.
Berenice – Tá desdenhando?
Zé Maria – Não. Tanta gente por aqui, não vai faltar
quem queira sua vasilha.
Berenice – Todo prosa...! Mas não se engane não, a
gente ainda vai se esbarrar, muito.
Zé Maria – Apertado do jeito que é, com certeza.
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CENA
27/ MANSÃO ASSUNÇÃO/ FACHADA/ EXT/DIA.
Fachada da bela mansão dos Assunção, os raios do dia
incidem no jardim trazendo ao ambiente um ar lívido.
Constancia (off) – A Laura chateada? E eu?
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CENA
27/ MANSSÃO ASSUNÇÃO/ SALA DE JANTAR/ INT/ DIA.
Mesa posta para um chá da tarde. Constância de um
lado da mesa e Alice logo de fronte.
Constância (continua) – Como fico com uma filha que não quer saber do
próprio casamento? Ah, estou fazendo tudo sozinha Alice. Os preparativos pro
casamento, a decoração da casa nova. Até o retrato do Edgar, na cabeceira da
Laura, fui eu que coloquei. Ah, ela gostava tanto dele, eu não entendo... Eu
não sei o que se passa na cabeça da Laura.
Alice – Tia, mas a senhora só vai saber conversando.
E não...
Constância – Não o que Alice!? Diga!
Alice – E não reclamando, quando a senhora diz a
Laura o que ela tem de fazer ela se afasta da senhora. Ah! Do jeito que a Laura
tá tia... Não sei. Deus me livre! Mas é capaz de ela desistir do casamento
antes mesmo de Edgar voltar de Portugal...
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CENA
28/ MANSÃO ASSUNÇÃO/ QUARTO DE LAURA/ INT/ DIA.
Laura escreve em seu diário, está com a tez séria
escrevendo com força. Constância entra, com ares de diplomacia.
Constância – Posso entrar minha filha?
Laura (se mantem sentada, de costas para a mãe) –
Veio quebrar o tinteiro, agora?
Constância – Imagina Laura, eu não devia ter rasgado
seu diário, eu me descontrolei. Mas é que eu estou muito preocupada com você.
Toda mãe cumpre uma missão quando casa uma filha, toda mãe tem certeza de que naquele momento fez tudo para
que sua filha seja feliz. Mas eu não sinto isso com você. Parece que eu não
cumprir a minha missão, parece que nada faz você feliz.
Laura – Não é isso.
Constância – Então o que é? Me diz eu quero
entender.
Laura – Quer?
Constância – Sim, eu quero. O que minha filha está
sentindo?
Laura – Mãe eu já te falei tantas vezes...
Constância – Então me perdoe se eu não ouvi. Diga...
Mas eu só quero que você entenda uma coisa filha, na sua idade é muito cedo pra
definir o que se quer para o resto da vida.
Laura – Exatamente! Mãe eu não sei se o Edgar...
Constância – Mas também pode ser muito tarde para
voltar atrás num compromisso. Eu entendo que você tenha uma duvida momentânea,
mas o que vale nessa vida minha filha é ter um bom companheiro. E o Edgar é um
homem exemplar. Dê tempo ao tempo,
espere ele voltar, deixe os sentimentos clarearem. Eu tenho certeza que você
vai vê-lo da mesma forma que antes. Com o mesmo encanto, com mesmo amor.
Ninguém merece ter a solidão como companhia. Muito menos você.
Laura – Eu não acho que o casamento...
Constância – Promete, promete que ao menos você vai
pensar sobre isso.
Laura – Tá bem, vou pensar, prometo. Mas eu vou
continuar dando as minhas aulas.
Constância – Enquanto o Edgar estiver fora.
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CENA 29/ RUAS DO CENTRO DO RIO DE JANEIRO /
EXT/NOITE.
Ruas do centro carioca, pessoas passeando pela
noite. Homens na porta de um bar, alguns cabrioles passando. Algumas pessoas
nos passeios. O foco vai para o restaurante Colonial.
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CENA 29/ RUA DO OUVIDOR / REST. COLONIAL/ EXT//NOITE.
Isabel e Zé Maria, andam no passeio que dá acesso ao
Colonial, mas ela ainda não percebeu.
Isabel – Fiquei surpresa com o convite. Pra ser
sincera eu nem sei porque eu aceitei.
Zé Maria – Porque você sabe que eu tenho medo do seu
pai. É aqui...
Isabel – Aqui?
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CENA
29/ RUA DO OUVIDOR / CONFEITARIA
COLONIAL/ /INT/NOITE.
As mesas estão repletas de pessoas todas brancas, e
quando as portas se abrem entrando por meio delas Isabel e Zé Maria, todos
param para observar, antes o cochicho que tomava conta do ambiente morre num
silencio sinistro. Zé Maria não liga, Isabel parece tensa.
Isabel – Aqui é muito caro, vamo pra outro lugar.
Zé Maria – Isabel não faça cerimonia, vamos.
Garçom – É... Essa mesa está reservada.
Zé Maria – Sim, o senhor a de ter outra disponível.
Garçom – Sugiro que procurem outra casa.
Zê Maria – Nos estamos no século vinte, caso o
senhor não tenha percebido. Uma garrafa de vinho tinto português, e os
cardápios por favor. Obrigado... Já fui pedindo o vinho nem perguntei se
você...
O garçom entrega os cardápios, Isabel olha bem para
Zé e não resiste, beija-o ali mesmo na frente de todos. A tela congela no beijo
dos dois!
FIM DO PRIMEIRO CAPITULO
